Um desafio do governo federal é a aproximação do grupo de parlamentares conservadores, com foco na isenção tributária para igrejas e a relação de afinidade ideológica.
📲 Acompanhe o A10+ no Instagram, Facebook e Twitter. Com a retomada das atividades no Congresso, um dos principais desafios enfrentados pelo governo federal é a necessidade de estabelecer uma conexão mais sólida com a bancada evangélica, que tem se mostrado decisiva em diversas votações. A influência desse grupo é cada vez mais evidente, especialmente em temas que envolvem valores morais e sociais.
Dentro desse cenário, a Bancada da Bíblia, como também é conhecida, tem se destacado por sua atuação coesa e estratégica. Os parlamentares conservadores que compõem essa bancada têm pressionado por pautas alinhadas aos seus princípios, o que reforça a importância de uma negociação cuidadosa por parte do governo. A bancada evangélica continua a ser um dos pilares mais influentes no Legislativo, moldando decisões que impactam diretamente a sociedade brasileira.
A Influência da Bancada Evangélica na Política Brasileira
A análise de especialistas ouvidos pela Agência Brasil, incluindo o escritor André Ítalo, autor do livro A Bancada da Bíblia: uma história de conversões políticas (editora Todavia, 301 páginas), destaca que a bancada evangélica, apesar de sua postura conservadora em questões de costumes, historicamente tem se alinhado ao governo em temas econômicos. ‘Independentemente de ser um governo de esquerda ou de direita, esse grupo sempre manteve proximidade com o Executivo’, afirma o pesquisador. A Bancada da Bíblia, como também é conhecida, consolidou sua força, mas enfrenta novos desafios.
Privilégios e Aproximação do Grupo
Uma das razões para essa aproximação, segundo André Ítalo, é a conveniência de manter privilégios, como a isenção tributária para igrejas. Ele relembra que, em governos anteriores aos de Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro, pastores já ocupavam cargos de destaque no primeiro escalão. Além disso, os evangélicos apoiaram figuras como Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. No entanto, o governo de Jair Bolsonaro marcou um ‘divisor de águas’ nessa trajetória governista. ‘Bolsonaro foi o primeiro presidente de direita a estabelecer uma relação de afinidade ideológica com a bancada evangélica‘, ressalta o pesquisador.
Mudanças com a Volta de Lula ao Poder
Com a volta de Lula à presidência, a Bancada da Bíblia deixou de ser governista, avalia André Ítalo. Ele observa que o crescimento da bancada tem sido mais lento, em contraste com o que ocorreu no final dos anos 1990 e em 2010. ‘Isso é natural, pois o crescimento da população evangélica também desacelerou. Além disso, a proporção de evangélicos na Câmara (menos de 20%) é menor do que na população geral (cerca de 30%)’, explica. Atualmente, a Câmara conta com aproximadamente 90 a 100 deputados evangélicos, de um total de 513. No Senado, há entre 10 e 15, de 81 senadores.
Dores do Crescimento e Estratégias Políticas
O professor Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que a bancada evangélica não é homogênea. ‘Há diversos segmentos e estratégias diferentes dentro do grupo. A mais consolidada é a da Igreja Universal, que se estruturou no Partido Republicanos, que hoje preside a Câmara’, observa. Barreto destaca que a estratégia do Republicanos foi uma das mais sofisticadas, ao abrir espaço para políticos não evangélicos, como o presidente da Câmara, Hugo Motta. ‘Essa abertura se mostrou muito acertada’, afirma. No entanto, a bancada enfrenta as dores do crescimento, com representantes pressionados por uma base que se tornou mais conservadora e alinhada à direita.
Pressões e Limitações da Base Conservadora
Barreto analisa que muitos parlamentares conservadores gostariam de se posicionar mais ao centro do espectro político, mas são limitados por uma base evangélica que se tornou mais radical. ‘A bancada se encontrou num espectro conservador de direita, o que restringe suas opções. A base foi deliberadamente politizada’, conclui. Essa dinâmica reflete os desafios enfrentados pelo grupo de parlamentares que busca equilibrar suas agendas com as demandas de uma base cada vez mais engajada e ideologicamente alinhada.
Fonte: © A10 Mais
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